“Não queiras ter pátria, não dividas a terra, não arranques pedaços ao mar. Nasce bem alto, que todas as coisas serão tuas...” (Cecília Meireles)


Não me enquadro muito bem a isso...
Essa é a minha lembrança mais antiga e recente também! E como este sentir me era/é pertinente, aprendi cedo a calar os sentimentos e desistir de desdobrar conselhos... Tornei-me telespectadora ou um corpo presente, só o corpo, a mente raramente.
Ah, mas como é difícil calar os olhos! Os meus olhos, dois viajantes, sempre caminhando... Fotografavam imagens em rabiscos nos papéis guardados debaixo do colchão.
E ante ao meu físico silêncio, vozes ao redor vez ou outra repetiam:  “Coitada, tão jovem e apática! A vida lhe será um fardo."
E eu, por ter herdado um sorriso que não inspirava confiança, sorria por dentro, brevemente, pois sempre estava mergulhada em pensamentos mais esperançosos.
Certa vez, depois de ser acometida por uma grave inflamação no ouvido e sendo medicada pelos amigos da minha mãe, acabei ficando por mais de três semanas surda. Começou devagar e depois de uns dias eu já não ouvia nada além dos meus próprios pensamentos e um zunido que começou não sei bem quando e durou todo o tempo de minha surdez, todo mesmo, dias e noites sem nenhum intervalo, era atormentador!
Porém, incrivelmente ainda me era pior não ter acesso as “vozes tão cheias de certeza” que me rodeavam. Cumpria-se o ditado: “melhor ouvir isso a ser surda” Eu estava temporária e literalmente surda!
Era mesmo um caos não ter a distração de ouvir os outros... A mente parecia uma máquina enlouquecida trabalhando no seu ritmo total. A minha única salvação foi escrever o que me vinha. Cada pensamento colocado no papel parecia se acalmar dentro de mim.
Papéis aceitam tudo e não nos julgam jamais, porém, quando a minha mãe os encontrava debaixo do colchão, o fim dos tempos se precipitava.
Dizia-me primeiramente sobre o desperdício das folhas e tinta de caneta que certamente, faltaria ao meu pai, depois, malmente lia algo e se aterrorizava por não compreender a procedência de tais escritos/rabiscos. Queimava todas as folhas com medo de que o meu pai descobrisse “a minha loucura”
Essa era a sua forma de me cuidar e amar, pois se o meu pai soubesse daquela mania, certamente iriam me doer as orelhas e todo o corpo e, porque eu ainda era muito inocente, a consciência também! Iria me culpar por toda a cena cujo ator principal seria meu pai e eu claro que a vilã... Mas a minha maior razão ainda era pelo o que a minha mãe viria a assistir e ouvir também.
Então eu passava alguns dias longe das folhas de papel, porém havia sempre alguma vareta da laranjeira que tínhamos no quintal, eu as usava para escrever as minhas loucuras no chão e depois apagava com o pé.
Quando ia comprar o pão, pedia ao padeiro para que o embrulhasse em duas folhas, alegando que as minhas mãos suavam... Ele me atendia e antes de chegar em casa, escondia por debaixo da roupa o prêmio (dobrado com muito cuidado).
Demorei muito para ir para à escola, somente com 8 anos... Lá me sentia no paraíso! Nem precisaria dizer o quanto me foi incansavelmente recomendado que escrevesse apenas o que a professora me pedisse, nada mais, nada menos!
Ai, mas isso era complicado demais para ser cumprido à risca!
Até que um dia descobri que davam caderninhos na secretaria, nesse mesmo dia descobri a vocação ao teatro.  Estaria salva se o vício não me levasse tantas vezes a mendigar...  Havia chegado o momento de confessar toda a verdade, nada mais que a verdade. E a grande verdade é que a supervisora possuía um generoso coração.
Fui então premiada com a promessa de que não me faltariam caderninhos para grafar os pensamentos (ela não me achou maluca!) desde que, em nenhum momento isso atrapalhasse o andamento dos meus estudos. Cumpria com facilidade o combinado e me sentia portadora de um baú inteiro de tesouros... 
Algumas vezes, tive minhas pesquisas, textos e pensamentos compartilhados  com os outros alunos pelos próprios professores. De forma alguma isso me fez popular, muito pelo contrário, apesar de estar em uma escola pública, qualquer criança ali, possuía mais que eu (eu era pobre e gêmea, então imagine, o pouco que a pobreza me dava, eu ainda tinha que dividir!) Não parecia normal que justamente eu me destacasse em curiosidade, notas e pesquisas.
Mas me acostumei a isso como a todo o resto... Nunca estive sozinha, sempre com um caderninho... Depois do recreio os meus colegas estavam suados, agarrados ou brigados com os seus amigos e eu sempre acompanhada do meu caderninho, perfumada pelo encanto dos momentos que passávamos juntos.
E foi assim que tudo começou... E eu nunca mais parei... O tempo e algumas experiências me comprovaram que todos estiveram certos... Em alguns dias eu estou louca, noutros, insana. Enfim, nunca socialmente sã.

lumansanaris
Imagem: Google

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