"Cabe-nos a tarefa irrecusável, seriíssima, dia a dia renovada, de - com a máxima imediaticidade e adequação possíveis - fazer coincidir a palavra com a coisa sentida, contemplada, pensada, experimentada, imaginada ou produzida pela razão." Goethe


Não me enquadro muito bem a isso...
Essa é a minha lembrança mais antiga e recente também! E como este sentir me era/é pertinente, aprendi cedo a calar os sentimentos e desistir de desdobrar conselhos... Tornei-me telespectadora ou um corpo presente, só o corpo, a mente raramente.
Ah, mas como é difícil calar os olhos! Os meus olhos, dois viajantes, sempre caminhando... Fotografavam imagens em rabiscos nos papéis guardados debaixo do colchão.
E ante ao meu físico silêncio, vozes ao redor vez ou outra repetiam:  “Coitada, tão jovem e apática! A vida lhe será um fardo."
E eu, por ter herdado um sorriso que não inspirava confiança, sorria por dentro, brevemente, pois sempre estava mergulhada em pensamentos mais esperançosos.
Certa vez, depois de ser acometida por uma grave inflamação no ouvido e sendo medicada pelos amigos da minha mãe, acabei ficando por mais de três semanas surda. Começou devagar e depois de uns dias eu já não ouvia nada além dos meus próprios pensamentos e um zunido que começou não sei bem quando e durou todo o tempo de minha surdez, todo mesmo, dias e noites sem nenhum intervalo, era atormentador!
Porém, incrivelmente ainda me era pior não ter acesso as “vozes tão cheias de certeza” que me rodeavam. Cumpria-se o ditado: “melhor ouvir isso a ser surda” Eu estava temporária e literalmente surda!
Era mesmo um caos não ter a distração de ouvir os outros... A mente parecia uma máquina enlouquecida trabalhando no seu ritmo total. A minha única salvação foi escrever o que me vinha. Cada pensamento colocado no papel parecia se acalmar dentro de mim.
Papéis aceitam tudo e não nos julgam jamais, porém, quando a minha mãe os encontrava debaixo do colchão, o fim dos tempos se precipitava.
Dizia-me primeiramente sobre o desperdício das folhas e tinta de caneta que certamente, faltaria ao meu pai, depois, malmente lia algo e se aterrorizava por não compreender a procedência de tais escritos/rabiscos. Queimava todas as folhas com medo de que o meu pai descobrisse “a minha loucura”
Essa era a sua forma de me cuidar e amar, pois se o meu pai soubesse daquela mania, certamente iriam me doer as orelhas e todo o corpo e, porque eu ainda era muito inocente, a consciência também! Iria me culpar por toda a cena cujo ator principal seria meu pai e eu claro que a vilã... Mas a minha maior razão ainda era pelo o que a minha mãe viria a assistir e ouvir também.
Então eu passava alguns dias longe das folhas de papel, porém havia sempre alguma vareta da laranjeira que tínhamos no quintal, eu as usava para escrever as minhas loucuras no chão e depois apagava com o pé.
Quando ia comprar o pão, pedia ao padeiro para que o embrulhasse em duas folhas, alegando que as minhas mãos suavam... Ele me atendia e antes de chegar em casa, escondia por debaixo da roupa o prêmio (dobrado com muito cuidado).
Demorei muito para ir para à escola, somente com 8 anos... Lá me sentia no paraíso! Nem precisaria dizer o quanto me foi incansavelmente recomendado que escrevesse apenas o que a professora me pedisse, nada mais, nada menos!
Ai, mas isso era complicado demais para ser cumprido à risca!
Até que um dia descobri que davam caderninhos na secretaria, nesse mesmo dia descobri a vocação ao teatro.  Estaria salva se o vício não me levasse tantas vezes a mendigar...  Havia chegado o momento de confessar toda a verdade, nada mais que a verdade. E a grande verdade é que a supervisora possuía um generoso coração.
Fui então premiada com a promessa de que não me faltariam caderninhos para grafar os pensamentos (ela não me achou maluca!) desde que, em nenhum momento isso atrapalhasse o andamento dos meus estudos. Cumpria com facilidade o combinado e me sentia portadora de um baú inteiro de tesouros... 
Algumas vezes, tive minhas pesquisas, textos e pensamentos compartilhados  com os outros alunos pelos próprios professores. De forma alguma isso me fez popular, muito pelo contrário, apesar de estar em uma escola pública, qualquer criança ali, possuía mais que eu (eu era pobre e gêmea, então imagine, o pouco que a pobreza me dava, eu ainda tinha que dividir!) Não parecia normal que justamente eu me destacasse em curiosidade, notas e pesquisas.
Mas me acostumei a isso como a todo o resto... Nunca estive sozinha, sempre com um caderninho... Depois do recreio os meus colegas estavam suados, agarrados ou brigados com os seus amigos e eu sempre acompanhada do meu caderninho, perfumada pelo encanto dos momentos que passávamos juntos.
E foi assim que tudo começou... E eu nunca mais parei... O tempo e algumas experiências me comprovaram que todos estiveram certos... Em alguns dias eu estou louca, noutros, insana. Enfim, nunca socialmente sã.

lumansanaris
Imagem: Google

MINHA FORTUNA

     
                              Ainda te amo
                              como a um velho costume
                              que se renova e aumenta 
                              a cada dia.
                              E este sentir me alimenta
                              de certa maneira.

                              Estás
                              até nas coisas mais simples
                              e me fazes falta
                              nas mais lindas...
                              Falta-me poder te dizer
                             - vem comigo ver! -

                              Estás no real e irreal
                              e ainda que te cumpras
                              interna e profundamente
                              todo o tempo dentro de mim,
                              és-me a exuberância
                              e completude 
                              mais irrealizável.

                              Sofro provisoriamente
                              todos os segundos
                              de uma saudade que é
                              tão tua, mas tão tua
                              que nunca me cabe.

                              A tua falta é e sempre será
                              a minha maior ameaça.

                               Passado de aprendizados
                               e das doçuras que se eternizam
                               presente sempre presente
                               futuro, talvez ainda mais presente
                               sempre liberto de arrestas.

                      Tenho-te e não
                      te tento te invento um poema
                      te levo nas asas do sol
                      do meu amor.
                                                          E te guardo em segredo
                                                        com medo de que saibam
                                                                        o quão grande 
                                                                   é a minha fortuna.

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C O T I D I A N O

Não sou triste
mas se,
esconjuro um poema.

Fiz das letras
a perpétua sepultura
de minhas dores.

Nunca entendi 
quem, pelas lágrimas 
me condena
mas que pela manhã,
afoga-se no sangue
dos jornais.

Digo, jamais bebi
de veia que não fosse
a minha.

Só não entendo
mas também não julgo
porque a cada um
cabe o peso
de sua própria pena.

Falo somente por mim
e com o peso das minhas
ensaio poemas...

lumansanaris
Imagem: Google


DA_PRESSÃO

É tão tarde que já quase amanhece, mas Deus ou Morfeu não me querem dormindo.
Estive a pouco com a lua, mas, francamente, não suporto mais essa mania que ela tem de me fazer chorar, melhor ignorar/engolir também!
Antes seria estranho afirmar, mas, não ouço música há dias, nem faço algum som, agora me cansam, falar, ainda mais...
Talvez tenha decidido escrever para tentar desabafar sem ter que pronunciar, sei lá, talvez venha a guardar para que me sirva de bússola no dia em que​ eu superar o que eu nem sei o que seja. Talvez guarde e releia vez ou outra para que nunca mais venha a me descuidar tanto assim.
Hoje, depois de dias, não me doeram tanto os olhos, ainda pesam, mas caminharam lentos entre algumas cenas e letras a minha volta, enchendo-se de pensamentos, porém, nenhuma coragem.
Ela está neste rascunho...
Não há sabor mais amargo do que o de desacreditar de si próprio... Bom, se houver, imploro por não provar.
A tristeza não é maior porque sinto um nada imenso... Se um dia fui, hoje não sou mais. O pior de tudo é essa dureza em quebrar, mesmo que estando em cacos, pois é assim que me sinto, milhares de cacos presos a uma vida que nem sei mais.
Os relógios quebraram, eu enlouqueci, todos estão cegos e um anjo ainda precisa de mim...
Pânico sem reação.
Nas vezes em que quis responder, não soube como. Noutras raras, até encontrei alguma justificativa, mas me ​faltou acreditar.
O medo é abissal.
O estômago agora é como um liquidificador cheio de pedras, as mãos tremem mais que de costume e os olhos eu nem sei mais. Dias atrás quando os vi no espelho, não os reconheci. Estão diferentes, indiferentes, insistentemente magoados... (Contradições a parte e em toda parte.)
Vozes malucas me sugerem caminhos que arrastariam mais vidas à dor e graças a Deus ainda me resta alguma consciência. Ignoro. Ouço de novo, ignoro, mais uma vez e outras tantas, sugerem alguma salvação e machucam algum outro tanto... Deito... Não porque seja bom, mas porque me parece mais fácil.
Já fingi várias vezes não estar acordada, para não ter que dizer, comer ou correr o risco de evidenciar aos outros o quão miserável me sinto. Em outras, fingi estar acordada, atenta e a par do que me dizia​m...
Claro que penso na tristeza alheia e isso me apavora. Enquanto estiver em mim, mesmo que não controle, tenho o controle.
Em silêncio, no mais profundo do coração, peço perdão para tantas gentes por saber que não posso acrescentar nada a elas.
O medo agora é de lhes tirar algo.
Não sei explicar, também não quero porque cansa e de nada iria adiantar.
Nesse exato momento uma coruja pia lá fora e isso me faz bem... Estar assim não apagou em mim a gratidão. Sei dos milagres que estão acontecendo, só acho que não mereço mais fazer parte. Eu não me enquadro mais a vida.
Queria tanto ter coragem de falar o que não sei, mas é amor. Tenho tanto amor por algumas pessoas e isso me faz chorar infinitamente mais que a lua.
E é por amá-los tanto que quero-ia-devo estar longe, pois sei que merecem mais... Sou nada, um nada imenso desajustado dolorido e pesado.
Hoje vejo tanta glória na morte. Imagino a paz dos que dormem... Mas, nunca me tornaria uma suicida, pois nasci dotada de algumas grandes covardias...
Hoje eu quis mesmo responder algumas vezes, mas em nenhuma delas soube o que dizer. Encontrar explicação para o que não sei e também mesmo se soubesse, não faria diferença.
Tudo parece estar abissal e irremediavelmente perdido.
Todos os ossos novamente me doem.. Caos dentro e fora de mim. As obrigações ainda são a minha salvação.
Não estou bem nem mal, estou nada. E nem quero saber de mim, por enquanto sigo no automático d​as coisas que simplesmente não posso parar.
Menos um dia... Gratidão pelo o que tive até aqui. Medo do que ainda está por vir.


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