"Cabe-nos a tarefa irrecusável, seriíssima, dia a dia renovada, de - com a máxima imediaticidade e adequação possíveis - fazer coincidir a palavra com a coisa sentida, contemplada, pensada, experimentada, imaginada ou produzida pela razão." Goethe

CONTRAMÃO


A cada metro que avanço,
volto um pouco mais ao passado.
( E estas horas,
que só me lembram atrasos? )

Então acelero, querendo parar.

"Engulo a lágrimas" alguns sentimentos,
aumento o som
buscando, a todo momento
calar a voz do pensamento.

Peço passagem à vida da frente,
que decerto, por estar a passeio
permanece indiferente.

Aumento mais um pouco o som,
 - prefiro assim, tremendo-me o íntimo
agitando inda mais os meus tumultos. -

Mas, a certa altura,
a velocidade da vida da frente
parece-me um insulto.

Mudo de faixa, ultrapasso errado
passo, fora de compasso
evitando o retrovisor.

Acelero, enquanto congelo
o pouco que me restava de emoção.

Desligo-me em meu destino,
suspiro profundamente, invento um riso
e a bolsa me leva pelos ombros
rumo a um passado cheio de escombros
e vidas vividas na contramão.

Lumansanaris
Imagem: Tumblr
Música citada no texto: Feel the Light


DOS DRAMAS

Guardei-te em meus silêncios,
quase que adormecido.

Somam-se as horas,
os sonhos e os quereres,
os pensamentos e as demoras.

E tu, quase que adormecido,
a todo momento presente,
nos melhores sentimentos.

E o silêncio, quase que preservando
os meus motivos de festa.

Sonhos escapando pelas frestas
de uma realidade, onde tudo
persiste num estado de quase.

Loucuras à parte,
- quase que em repouso -
cedem espaço ao amanhecer.

Enquanto eu, vou deixando de ser
guardando-te quase que em silêncio,
presa a um quase sobreviver.


Lumansanaris
Imagem: Google

DO CLAREAR


É quando busco alguma paz
que te encontro.

E quando penso que não dá mais,
reinventas-te, dentro dessa tua doce rotina 
de sempre me querer, bem.

Quando no cansaço, 
os meus olhos procuram algum repouso,
os teus se abrem em primaveras,
delicadezas e ternuras, que me curam.

E mesmo que sem te buscar,
estás em tudo.

E ainda que sem nada esperar,
estás alerta e sempre pronto.

Se me perco em dúvidas,
os teus atos, concretos, 
afloram-me sentimentos serenos
provando, a todo momento
o quanto és capaz de me amar.

Amor que nada pede em troca
destinando o que há de melhor em si
inteiramente para mim.

Amor liberto, que se prende tão somente
ao constante cuidado de sempre querer 
clarear as minhas horas escuras.

lumansanaris
Imagem: Google

O AMOR EM VISITA

Minha singela homenagem ao Grande, Helberto Helder.

(23 Nov 1930 / 24 Mar 2015 )


Se te apreendessem minhas mãos, forma do vento
na cevada pura, de ti viriam cheias
minhas mãos sem nada. Se uma vida dormisses
em minha espuma,
que frescura indecisa ficaria no meu sorriso?
- No entanto és tu que te moverás na matéria
da minha boca, e serás uma árvore
dormindo e acordando onde existe o meu sangue. 

Beijar teus olhos será morrer pela esperança.
Ver no aro de fogo de uma entrega
tua carne de vinho roçada pelo espírito de Deus
será criar-te para luz dos meus pulsos e instante
do meu perpétuo instante.
- Eu devo rasgar minha face para que a tua face
se encha de um minuto sobrenatural,
devo murmurar cada coisa do mundo
até que sejas o incêndio da minha voz.

As águas que um dia nasceram onde marcaste o peso
jovem da carne aspiram longamente
a nossa vida. As sombras que rodeiam
o êxtase, os bichos que levam ao fim do instinto
seu bárbaro fulgor, o rosto divino
impresso no lodo, a casa morta, a montanha
inspirada, o mar, os centauros do crepúsculo
- aspiram longamente a nossa vida.

Por isso é que estamos morrendo na boca
um do outro. Por isso é que
nos desfazemos no arco do verão, no pensamento
da brisa, no sorriso, no peixe,
no cubo, no linho, no mosto aberto
- no amor mais terrível do que a vida.

Beijo o degrau e o espaço. O meu desejo traz
o perfume da tua noite.
Murmuro os teus cabelos e o teu ventre, ó mais nua
e branca das mulheres. Correm em mim o lacre
e a cânfora, descubro tuas mãos, ergue-se tua boca
ao círculo de meu ardente pensamento.
Onde está o mar? Aves bêbedas e puras que voam
sobre o teu sorriso imenso.
Em cada espasmo eu morrerei contigo. 

E peço ao vento: traz do espaço a luz inocente
das urzes, um silêncio, uma palavra;
traz da montanha um pássaro de resina, uma lua
vermelha.
Oh amados cavalos com flor de giesta nos olhos novos,
casa de madeira do planalto,
rios imaginados,
espadas, danças, superstições, cânticos, coisas
maravilhosas da noite. Ó meu amor,
em cada espasmo eu morrerei contigo.

De meu recente coração a vida inteira sobe,
o povo renasce,
o tempo ganha a alma. Meu desejo devora
a flor do vinho, envolve tuas ancas com uma espuma
de crepúsculos e crateras. 

Ó pensada corola de linho, mulher que a fome
encanta pela noite equilibrada, imponderável -
em cada espasmo eu morrerei contigo. 

E à alegria diurna descerro as mãos. Perde-se
entre a nuvem e o arbusto o cheiro acre e puro
da tua entrega. Bichos inclinam-se
para dentro do sono, levantam-se rosas respirando
contra o ar. Tua voz canta
o horto e a água - e eu caminho pelas ruas frias com
o lento desejo do teu corpo.
Beijarei em ti a vida enorme, e em cada espasmo
eu morrerei contigo.


Herberto Helder, 1957.
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