"Cabe-nos a tarefa irrecusável, seriíssima, dia a dia renovada, de - com a máxima imediaticidade e adequação possíveis - fazer coincidir a palavra com a coisa sentida, contemplada, pensada, experimentada, imaginada ou produzida pela razão." Goethe

CARTA AO AMOR SOBREVIVIDO



Não se engane, essa calma é aparente. Andei atravessando dores tão sofridas que precisei diminuir o ritmo, isso tudo é uma tentativa de regenerar o coração.
Amar você assim, tão desmedidamente, põe-me a prova do existir em todos os momentos. 
Delírios, verdades e contradições. E quando os sonhos me elevam,  logo após alguma felicidade vem a verdade, caprichosamente me lembrar a sua existência tão real em outras vidas, jamais na minha, nunca nela, mesmo sendo tão sua.
E tudo parece conspirar como justificativa. O amor está longe de se tornar justo.
Apenas chega, invade, transborda, toma tudo para si... Confunde  razão e coração.
Meu coração... Recolho os seus milhares de cacos, sempre uma vez mais.
E quando a noite chega, embrulho-me em um papel de estrelas... E apenas neste momento, torno-me o presente que queria ser,  apenas pela liberdade do sentir...
Sozinha e solitária, mas, sem culpas ou julgos...
Porque as estrelas calam e esse agrado me é doce. Permitem o alimento à esta vida que nunca soube ser, sempre naufragada em sentires tão avessos, inapropriados, às vezes indigestos, noutras  sedentos por qualquer coisa que não reflita carência e solidão.
Eu, em meio ao papel de estrelas,  abraçada e ouvida, momentaneamente aceita e, por isso, em  paz!
Tantas noites em segredo beijei os dois lados de sua face, a fronte, lábios e coração...
Nesse meu sentir inteiro e faminto... Cicuta e absinto.
Quantas noites frias, aqueci o seu lado da cama, depois lhe envolvi com o cobertor energizado pelo sol do dia, perfumando o seu corpo com cuidados, deixava o chá na cabeceira, bem ao lado das páginas que lhe fazem suspirar...  Coloquei-me discretamente ao seu lado, querendo e não ser sentida, mas sempre implorando ao céu que o melhor conforto lhe envolvesse.
Quantas noites de calor quis ser a brisa que lhe tocava a pele, num campo ou jardim que agradasse os seus sentidos e os conduzissem ao prazer de se sentir queimar, na verdadeira febre do amor...  Tantas noites acendi pirilampos e derrubei estrelas do céu, convidando-lhe a mergulhar em seus sonhos mais secretos.
E apesar da grandeza das noites, sempre amanheceu... Há beleza nisso, mas também, alguma violência.
Mesmo quando os sonhos em stand by, ainda assim, todas as minhas dúvidas se acalmam na certeza de que esse sentimento, é bom, verdadeiro e para sempre seu.
Não há no mundo um ser que conheça o tamanho de minha paz e a profundidade de meus conflitos.
Mas sempre sigo, às vezes solitária, noutras com o mundo nas costas e você sempre protegido e guardado no coração, como uma prova para a minha fé, num constante desafio de posse, onde sempre perco, a cada novo despertar.
É quase que constante o sangrar, nele, a dor, o amor, as ausências, os planos natimortos, os sonhos que elevam e a verdade que subtrai.
Mas, nada disso importa, desde que você esteja bem e verdadeiramente feliz, mergulhado num mar de possibilidades.  Numa vida longa e feliz.
Enquanto a mim, vou vivendo com os meus impossíveis, tendo como descanso o prêmio de alguns sonhos. Embrulhando-me em papel de estrelas, espero um dia alcançar o céu, numa viagem em desaviso.

lumansanaris 02-03-14
Imagem: Google

 

O C A S O


                                            Há um acorde infinito
                                         em cada gesto que prossegue
                                         junto com a marcha incansável 
                                         das horas.
                                         
                                         Mas pauso-me 
                                         em meio a tantos cansaços,
                                         respirando profundamente
                                         o silêncio das últimas horas mornas.

                                         E é esse perfume de tarde
                                         que chega mimetizando 
                                         o externo em mim,
                                         num ritual de carícias e cuidados
                                         fazendo com que 
                                         o desabrochar da primeira estrela
                                         desperte em meu íntimo,
                                         uma canção antes adormecida.

                                         Despeço-me então dos sonhos 
                                         alquebrados pela realidade.

                                         Enquanto isso, no jardim do céu
                                         faz-se primavera de estrelas
                                         que docemente acordam, 
                                         todas as minhas saudades.


lumansanaris
      Imagem: Google

 

DESCONHECES


Sabes de muito,
Acho mesmo que sabes.

Sabes do mundo
E todas as regras quebras.

Sabes do mar e da lua
E em meu peito navegas.

Sabes dos caminhos
Trilhas de espinhos e perfumes.

Sabes do ventos
O soprar dos quatro cantos.

Sabes das palavras
A boa lavra, poesia...

Sabes da poesia
Verdade, mentira, riso e pranto.

Sabes de muito, sabes tanto
Apenas a mim desconheces.

Lumansanaris
 Imagem: Google

GRITO MUDO


Trago nos pés
 o cansaço das trilhas de vidro
e sonhos estilhaçados.
Também comigo
as amarras de uma intolerância
 por engano deixada
onde deveria estar preservada
a liberdade do amor.
Por ora, dou-me o único direito
as lembranças de tudo
o que nunca existiu...
Suplicando a todo momento,
o próprio resgate, absolvição
e devolução de minha alma.
Culpo a coragem, foi justamente ela
que me cegou assim,
permitindo que na soma das horas
houvesse a desmedida redução
de mim.
Talvez por isso, agora deseje tanto
um pedacinho desse tempo
chamado passado...
Quisera apenas poder me socorrer,
e direcionar melhor o perdão
resgatando novamente 
a visão clara e desprotegida
- ao menos nas certezas
dos doces sentires-
Mas não... Hoje, tudo é nada
e nisso concerne infinita dor...
E é pela dúvida que me chega
um pouco de acalanto
e para todo o resto,
eu nada sei...
Então se procurar respostas,
pergunte à dor, essa mesma
que agora me ocupa o peito
pois exatamente ela
é que mais sabe sobre mim.

Lumansanaris
Imagem: Google
Video: etne Al
(vídeo adicionado em 19/03/17 vindo pela indicação de Amanda Lopes)
Gratidão, amiga. É lindo  (mesmo que eu não concorde com alguns pontos, rs...)
*Amei a ideia de liberdade e a sinceridade exposta, a música é linda 
e o teu gesto tem uma doçura que me encanta.
Meu carinho mais transparente e amigo.


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