"Cabe-nos a tarefa irrecusável, seriíssima, dia a dia renovada, de - com a máxima imediaticidade e adequação possíveis - fazer coincidir a palavra com a coisa sentida, contemplada, pensada, experimentada, imaginada ou produzida pela razão." Goethe

EPITÁFIO



Não contei o tempo, mas nunca antes uma dor havia demorado tanto para se anunciar dentro de mim. Talvez, naquele momento, tenha havido um desligamento dos nervos, não sei bem.
No começo me parecia uma gripe, um pequeno chiado. Eu não chorei. Também não tive dificuldade em dormir, mesmo tendo abandonado os remédios... Talvez por isso, o sono não me foi muito tranquilo... Tive sonhos confusos, pesadelos horríveis, febres, algumas dores e calafrios.
Também vieram os vômitos... E foram tantos que muitas vezes acordei só para isso.
Perdi a conta das vozes que calei, que não quis ouvir porque a dor da confirmação me parecia absurda. Eu não pensava, apenas seguia. 
Nos momentos em que podia olhar para mim, tratei de ir separando as minhas partes e, muito foi totalmente descartado. 
Estranhamente não tive medo algum, apenas fui tentando organizar mesmo algumas partes, sem raciocinar muito.
Várias vezes pedi em oração que o choro me viesse, mas os anjos não se ocupam muito de quem tem culpas... Por elas sim, eu sofri diariamente.
Escarnou-me ver o quão pouco havia me tornado. Os caminhos escolhidos e abandonados... 
Senti que, de repente, um enorme nada invadia onde o tudo, por tanto tempo, havia habitado... E a profundidade desse ferimento decretou a morte de algumas das minhas fés e do pouco que me restava de inocência. 
Eu podia me ver como que em coma... Tudo o que havia crido e vivido sendo arrancado de mim... Quis esfacelar o próprio crânio, para não ter mais que fugir do pensar.
Uma negação profunda, mas calma. Mesmo nos momentos mais destrutivos, não me reconhecia pela tranquilidade... Eu não parei para sentir, apenas segui... E apesar de tudo, havia alguma paz... A paz docemente me sussurrava “mais um pouco Mara, só mais um pouco, um pouquinho mais...”
E de pouco em pouco e com muito trabalho, segui... E também fui um pouco feliz. 
Quando sentia que a dor ia acordar, eu a desligava, não a ouvia.
Apenas a sensação de me sentir gripada, todos esses dias... Perguntavam-me e eu dizia que ainda era a gripe.
Mas hoje não! Hoje não havia resposta, nem algum motivo aparente, muito pelo contrário, hoje eu deveria ter sorrido mais, mas invés disso, busquei isolamento e chorei. 
Hoje eu chorei... Tanto, tão sentida e profundamente que desejei que o mundo todo chorasse comigo... Pensei que não fosse dar conta, o meu único medo foi o de não dar conta do choro!
E em determinado momento percebi que aquilo me velava e não havia mais o que fazer. Talvez por isso, também tenha desejado o choro de todos, não para aliviar o meu choro, mas sim, para me fazer cortejo. Para que, de uma só vez, todos vissem e compreendessem que aquela Mara, havia partido... E que nada mais, nunca mais seria como antes.
E dentro de mim, fiz essa viagem... Eu aceitei a morte... Dei descanso a quem fui.
Tudo feito com calma e paz. Mesmo nos piores momentos, aquele dilúvio me foi como que um salmo de despedida. 
Ensaio nesse relato, a minha lápide. 



              Imagem: Google


17 comentários:

Cidália Ferreira

Foi de cortar a respiração.. Texto tristemente lindo!

Beijinhos de boa noite
Coisas de Uma Vida 172

Amanda Lopes

Minha querida Lucy, ainda lhe resta a alma, uma alma raríssima e mui preciosa!
Que lhe sejam abundantes as palavras que me faltam agora e que são só de carinho.
Receba o meu abraço mais forte e acolhedor.

Anônimo
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Bonequinha de luxo

Até a tristeza mais profunda tem a sua beleza.
Lindo Lucy!

Élys

Um texto corajoso, porém triste...Que Deus te abençoe.

Anônimo

Temos a equivocada ideia de que o amor só constrói, ilumina e cura, porém é fácil demais amar apenas o que nos soma. O amor é mais! Amar é deixar-se diluir, provando as mais diversas dores também! A verdade muitas vezes dói e maltrata, afinal de contas estamos todos em processo de evolução.
Arrisco dizer que aqui neste teu escrito, pude contemplar o amor em sua manifestação mais profunda e verdadeira.
O corpo sente as dores da alma e essa sintonia lapida o existir. Nenhum amor verdadeiro chega ao fim, apenas se transforma e nos transforma, talvez por isso tão poucos tenham a coragem de amar assim.
Estarei aqui para contemplar uma versão ainda mais forte de ti minha querida amiga Lucy.
Forte e terno abraço, repleto da mais alta admiração, Humberto.

Bell

Forte!!

bjokas =)

Suzete Brainer

Querida Lucy,

Neste teu belo, dorido e profundo texto, há uma revelação
da transformação interior, a morte para a renovação, para
o desapego de ilusões e o mais importante, o reencontro
contigo na tua força, fragilidade, sensibilidade e
transcendência...
O choro é o nosso Rio Claro de emoções profundas,
devemos deixá-lo seguir nessas emoções. Nunca reprimir
o choro do rio das emoções profundas, pois seria uma
morte definitiva para a sensibilidade.
Uma alma sublime, poética e bela como a tua,
precisa deixar este rio fluir, querida!...
Beijo e abraço de alma levando paz!...rss

Anônimo

Confesso que não tenho como escrever sobre o texto que acabei de ler. Parece-me assim como uma confissão de ti para tua própria alma. É triste, mas é profundamente esclarecedor. Digo-te apenas que te entendi perfeitamente. O que não ouso comentar, pois que me falta autoridade moral de maior envergadura para isto, é este reconhecimento de extrema sabedoria e humildade que demonstrastes.
Penso que o renascimento do espírito pode dar-se de várias formas e em várias situações. Pela dor... Pelo amor... Às vezes a proximidade da partida é tão somente uma espécie de chamamento à realidade Maior, máxime que traz esta Realidade dentro de si, muitas vezes ainda escondida...
Não é fácil quebrarmos antigos preceitos ou mesmo abrir o coração para àqueles que, não raras vezes sem o querer, nos ferem de alguma forma. Temos 365 dias oportunidades de “renascer” para a vida que nos é preciosa e à qual devemos agradecer pelas oportunidades de crescimento espiritual. Este renascimento pode sem, também, entendido como renovação ainda nesta vida.
A isto teu texto me levou.
Forte abraço, e, que a Paz do Divino Mestre esteja conosco...
Nelson

Ana Bailune

A mais difícil separação, é aquela de quem fomos.
Lendo seu livro aos poucos...
E que linda música de fundo você colocou no blog!

Vanessa M.

Que texto profundo.. Bastante reflexivo e sincero! Gostei muitíssimo!!
Um grande abraço

Mar Arável

Belo epitáfio

Anônimo

Uma pessoa extremamente linda por dentro e por fora, simples, doce e uma delicadeza exuberante que disfarça bem a força de uma alma que é só luz! Minha amiga querida, o nosso amor tem duas décadas e só aumenta, pois quanto mais você cresce, mais humilde e linda se torna. A tia Raquel tem razão em tudo o que diz, você é de outro mundo! A tristeza desse texto não me preocupa porque sei que é preparada para grandes batalhas! Sucesso com o livro e que a gente possa estar junto muito mais vezes. Beijo e amor. Fabiana

Amanda Lopes

Lucy querida, feliz páscoa!
Saudades!

Lucy Mara Mansanaris

Fá... Amor e gratidão, ad aeternum...

Ani Braga

Oi Mara querida

Adorei o post, também me fez pensar demais... E eu acho nessa hora onde a gente se permite deixar algumas coisas para trás e renascer é que nos fortalecemos.

Beijos
Ani

Salete

Encontrar a paz em meio ao tumulto de emoções das quais somos feitos, não é tarefa fácil. É preciso muita coragem, Mara. Por isso, parabéns. O texto ficou belíssimo e a música contribuiu para dar a profundidade que o texto pede.

Beijinho.

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